sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

DINHEIRO DÁ EM ÁRVORE?



Fixei bem o olhar e as minhas suspeitas se confirmaram: era mesmo dinheiro ali no chão. Olhei para os dois lados, já vendo em pensamentos o dono o procurando. Nada. Olhei de novo, procurando com o olhar alguém com cara preocupada. Ou meninos prendendo o riso com a cordão para puxar a nota na hora em que o primeiro besta aparecesse (essa é tão antiga que os meninos de hoje nem devem conhecer). Nada. as pessoas iam e vinham tão absortas em seus pensamentos que nem reparavam aquela pessoa parada como um poste ali no meio da rua.

Na fração de segundo entre estar em dúvida e decidir apanhar a nota, vários pensamentos me passaram pela cabeça: "assim que eu me abaixar vai aparecer alguém gritando 'É meu!'"..."Será que era a única notinha de alguém que estava saindo para comprar a refeição do dia?"..."E se tiver uma criança chorando pelo seu dinheirinho poupado com sacrifício para comprar aquele carrinho?"... Enredos dignos de novela mexicana se formaram rapidamente enquanto eu caminhava com cara de pato arrependido (essa eu peguei emprestada no teu pote, compadre!).

Numa proporção menor que os dramalhões também surgiram hipóteses mais positivas: "Ah, deve ter caído de uma carteira bem cheia...nem sentiram falta..."

A velha dor na consciência começava a bater à porta: "vou perguntar às pessoas"... E então: "Ah, quem vai dizer que não é o dono?"

Além do mais eu não tenho a mínima vocação para fazer enquete nem para testar a honestidade alheia.

Eu acho que nunca ganhei nem sorteio de escola. As coisas para mim não chegam na bandeja. Ainda bem. Continuei caminhando com a nota na mão.

Pelo sim, pelo não, doei para um lugar que com certeza fez bom uso do dinheiro. Não gosto de coisa fácil (excluindo a Mega sena, claro).

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A JANELA DOS OUTROS - Martha Medeiros


Gosto dos livros de ficção do psiquiatra Irvin Yalom (Quando Nietzsche Chorou, A Cura de Schopenhauer) e por isso acabei comprando também seu Os Desafios da Terapia, em que ele discute alguns relacionamentos padrões entre terapeuta e paciente, dando exemplos reais. Eu devo ter sido psicanalista em outra encarnação, tanto o assunto me fascina.

Ainda no início do livro, ele conta a história de uma paciente que tinha um relacionamento difícil com o pai. Quase nunca conversavam, mas surgiu a oportunidade de viajarem juntos de carro e ela imaginou que seria um bom momento para se aproximarem. Durante o trajeto, o pai, que estava na direção, comentou sobre a sujeira e degradação de um córrego que acompanhava a estrada. A garota olhou para o córrego a seu lado e viu águas límpidas, um cenário de Walt Disney. E teve a certeza de que ela e o pai realmente não tinham a mesma visão da vida. Seguiram a viagem sem trocar mais palavra.

Muitos anos depois, esta mulher fez a mesma viagem, pela mesma estrada, desta vez com uma amiga. Estando agora ao volante, ela surpreendeu-se: do lado esquerdo, o córrego era realmente feio e poluído, como seu pai havia descrito, ao contrário do belo córrego que ficava do lado direito da pista. E uma tristeza profunda se abateu sobre ela por não ter levado em consideração o então comentário de seu pai, que a esta altura já havia falecido.

Parece uma parábola, mas acontece todo dia: a gente só tem olhos para o que mostra a nossa janela, nunca a janela do outro. O que a gente vê é o que vale, não importa que alguém bem perto esteja vendo algo diferente.

A mesma estrada, para uns, é infinita, e para outros, curta. Para uns, o pedágio sai caro; para outros, não pesa no bolso. Boa parte dos brasileiros acredita que o país está melhorando, enquanto que a outra perdeu totalmente a esperança. Alguns celebram a tecnologia como um fator evolutivo da sociedade, outros lamentam que as relações humanas estejam tão frias. Uns enxergam nossa cultura estagnada, outros aplaudem a crescente diversidade. Cada um gruda o nariz na sua janela, na sua própria paisagem.

Eu costumo dar uma espiada no ângulo de visão do vizinho. Me deixa menos enclausurada nos meus próprios pontos de vista, mas, em contrapartida, me tira a certeza de tudo. Dependendo de onde se esteja posicionado, a razão pode estar do nosso lado, mas a perderemos assim que trocarmos de lugar. Só possuindo uma visão de 360 graus para nos declararmos sábios. E a sabedoria recomenda que falemos menos, que batamos menos o martelo e que sejamos menos enfáticos, pois todos estão certos e todos estão errados em algum aspecto da análise. É o triunfo da dúvida.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Irena Sendler




Esse texto, que não é da minha autoria, estava no meu outro blog que foi para o espaço. Vale a pena registrá-lo de novo aqui, uma singela homenagem à memória desta mulher, que faleceu aos 98 anos em 2008 e soube fazer a diferença enquanto viveu:

Nascida em 1910, Irena Sendler foi uma desconhecida durante muitos anos para os poloneses.

O mesmo acontecera com Oskar Schindler, que morreu na pobreza na Alemanha antes da façanha de ter salvo os funcionários judeus de sua fábrica ser levada ao cinema por Steven Spielberg.

Apenas em março de 2007 a Polônia lhe prestou uma homenagem solene e seu nome foi proposto ao prêmio Nobel da Paz.

No entanto, o memorial israelense do Holocausto, o Yad Vashem, lhe entregou em 1965 o título de Justo entre Nações, destinado aos não judeus que salvaram judeu.

Assistente social, Irena Sendler trabalhava antes da guerra com famílias judias pobres de Varsóvia, a primeira metrópole judia da Europa, onde viviam 400.000 dos 3,5 milhões de judeus de toda a Polônia.

A partir do outono de 1940, passou a correr muitos riscos ao fornecer alimentos, roupas e medicamentos aos moradores do gueto instalado pelos nazistas.

No fim do verão de 1942, Irena Sendler se uniu ao movimento de resistência Zegota, (Conselho de Ajuda aos Judeus).

A polonesa conseguiu retirar de maneira clandestina milhares de crianças do gueto e as alojava entre famílias católicas e conventos.

"Fomos testemunhas de cenas infernais quando o pai estava de acordo, mas a mãe não", comentou a um site na internet dedicado a ela (www.dzieciholocaustu.pl).

As crianças eram escondidas em maletas e retiradas por bombeiros ou em caminhões de lixo. Em alguns casos chegavam a ser escondidas dentro dos abrigos de pessoas que tinham autorização para entrar no gueto.

Sendler foi presa em sua casa em 20 de outubro de 1943.

Durante o período em que ficou detida no quartel-general de Gestapo, foi torturada pelos nazistas que quebraram seus pés e pernas. Ainda assim, ela não falou nada. Logo depois, foi condenada à morte, mas milagrosamente foi salva quando a conduziam à execução por um oficial alemão que a resistência polonesa conseguiu corromper.

Sendler continuou sua luta clandestina sob uma nova identidade até o final da guerra, trabalhando como supervisora de orfanatos e asilos em seu país.

Nunca se considerou uma heroína. "Continuo com a consciência pesada por ter feito tão pouco", confessou.

Devido ao seu estado de saúde delicado, Irena Sendler não participou da cerimônia que lhe homenageou em 2007, mas enviou uma sobrevivente, salva por ela em um gueto quando bebê, em 1942, para ler uma carta em se nome.

"Convoco todas as pessoas generosas ao amor, à tolerância e à paz, não somente em tempos de guerra, mas também em tempos de paz", escreveu.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Crianças ou super herois?


Ah, se a gente pudesse ver o mundo sob a ótica de uma criança! Se as levássemos mais a sério aprenderíamos tanto!

Durante esta semana tive aulas de vida com dois meninos. Um deles, o pequeno Caio de apenas sete anos, se preocupa com futuro da Terra. Isso porque nós, os adultos, que deveríamos cuidar da mundo para deixá-lo mais bonito e saudável para os nossos filhos, não o fazemos. Então Caio, que não é adulto para ficar só se lamuriando, criou o seu blog sobre reciclagem e qualidade de vida, o http://meumundoreciclavel.blogspot.com/ . E isso, Caio, me ajudou a pensar mais no mundo que eu quero. E prometo que vou transformar o pensamento em ação, viu?

O outro garotinho, o Arthur Amorim,´tem nove anos e sabe tudo sobre dinossauros: tamanho, peso, época em que viveram, hábitos, tudo mesmo. Até escreveu um livro! O seu sonho sempre foi ser entrevistado pelo Jô Soares sobre os dinos. Ontem vimos a realização do seu sonho. Arthur, apesar da dificuldade para falar devido ao enorme tumor na face, deu um show de conhecimentos. Apesar de médicos falarem que não há mais alternativa de tratamento para ele, quer ser paleontólogo e morar na Alemanha. Apesar das dores, tem sempre uma palavra amável para todos.

Aos dois, o meu reconhecimento pela sabedoria e meu agradecimento por compartilhá-la conosco.

POEMA PARA ARTHUR, feito pelo pai dele:

DESCOBRI QUE TENHO UM FILHO SUPER-HERÓI!

SUPER-HERÓI, porque quando nos falta força, fortalece-nos com sua força de vontade
SUPER-HERÓI, porque se estamos tristes, alegra-nos com seu sorriso
SUPER-HERÓI, porque se desconfiamos dos médicos, nos diz que vai ensiná-los a trabalharem direito
SUPER-HERÓI, por dizer, a cada enfermeira ou médico, OBRIGADO mesmo com osseus olhos cheios de dor e sofrimento
SUPER-HERÓI, por ter falado “DESCULPA TIA” a enfermeira que colocou o soro noseu pescoço
SUPER-HERÓI, por me explicar, do seu jeito, quais são os efeitos da quimio
SUPER-HERÓI, porque com seu jeito infinito de ser doce, adoça toda a minhavida
SUPER-HERÓI, por não nos conceder o direito de desistir
SUPER-HERÓI, por nos ensinar que mesmo sofrendo, precisamos ser solidários aos outros
SUPER-HERÓI, por sua vontade de viver
SUPER-HERÓI, pelos os seus desabafos quando lhe falta a paciência
SUPER-HERÓI, pela sua lucidez em encarar os fatos
SUPER-HERÓI, por não ter medo do câncer
SUPER-HERÓI, por não aceitar a pena de ninguém
SUPER-HERÓI, por nos consolar quando choramos escondidos
SUPER-HERÓI, por se preocupar com seus amiguinhos que também estão em tratamento
SUPER-HERÓI, por seu bom humor e suas piadas
SUPER-HERÓI, pelo orgulho que tem de ser meu filho
SUPER-HERÓI, pelo o amor que tem pelo seu irmão
SUPER-HERÓI, por tomar conta de sua mãe
SUPER-HERÓI, por cuidar de todos nós
SUPER-HERÓI, por nos convidar a rezar com ele
SUPER-HERÓI, pela sua fé
SUPER-HERÓI, por pedir a Papai do céu “ para tirar esse dodói da minha
cabeça”
SUPER-HERÓI, por me ensinar que câncer tem que ser escrito com letra
minúscula pra ficar mais fraco
SUPER-HERÓI, por me mandar beijos quando não pode falar
SUPER-HERÓI, por me ensinar que o que nosso bem mais precioso é a nossa
Família
SUPER-HERÓI, por me fazer encarar a vida com mais discernimento e lucidez
SUPER-HERÓI, por me mostrar que, por pior que pareça, sempre temos que
agradecer a Deus
SUPER-HERÓI, por sonhar com tanta força
SUPER-HERÓI, por me ensinar o verdadeiro sentido da Vida
SUPER-HERÓI, por me mostrar o valor de dizer “ TE AMO”
SUPER-HERÓI, simplesmente por ser meu FILHO.

FRUTOS




Esta é a primeira fruta das plantas do nosso jardinzinho: uma pitanga. Grande surpresa quando a percebemos, já vermelhinha naquela manhã. Pensei sobre a boa sensação de se ver o fruto daquilo que plantamos. E não é pela colheita, mas pelo plantar, regar, ver crescer, florescer...O processo foi ainda melhor que o resultado.

Assim como na vida, não gosto de perseguir cegamente um objetivo. Ainda que tenha uma meta, gosto de curtir o caminho enquanto busco alcancá-la. O caminho às vezes traz mais satisfação que o fim em si mesmo.

E o no nosso jardim outras plantas crescem, o pé de fícus já faz uma sombrazinha minúscula, o pé de jasmim de vez em quando nos presenteia com as suas flores e seu perfume quando nos sentamos no banco de cimento para admirar as estrelas, a goiabeira teima em não crescer mas não desistimos dela.

Continuamos regando o jardim e a vida, curtindo o florescer de ambos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

“Um filho teu não foge à luta”


Domingo ensolarado, céu lindo, prenúncio de coisas boas no ar...

Neste dia escolhemos o futuro presidente do nosso país. Ou presidenta, como preferem alguns e a gramática autorizou. Eu não gosto de expressão “presidenta”, acho estranho. Até me vejo chamando a “gerenta” do meu banco. Não dá.

Mas muito me anima a ideia de ter uma mulher no comando da nação. Ainda mais quando traz com ela as possibilidades de continuidade das políticas públicas de inclusão social do governo Lula. Governo, aliás, que ficou para a história. Um operário, sem curso superior, desacreditado por muitos. Venceu, há oito anos, enfrentando a máquina e um monte de baixarias que marcaram a campanha. Mas venceu, fez um bom governo, projetou o país no exterior e especialmente nos tirou da sola dos sapatos do Tio Sam. Tirou também milhões de pessoas da linha de pobreza através dos programas de renda mínima, que muitos chamam de esmola, mas para mim é o pagamento de uma dívida social que o Brasil tem com os menos favorecidos há 500 anos. Ora, se graças à escravidão, depois à exploração, aos baixos salários, carga horária excessiva, informalidade e outras mazelas os ricos acumularam ainda mais riquezas, desde os tempos da colonização, então porque não reparar esse roubo sistemático de dinheiro e dignidade com um programa de renda mínima para quem vive abaixo da linha da pobreza?

Enfim, após uma campanha vergonhosa e apelativa feita pelos derrotados, venceu Dilma Roussef, a primeira mulher a presidir o Brasil. Ao conhecer a sua história de vida passei a admirá-la porque é corajosa, em nome da democracia enfrentou a ditadura militar, foi presa e torturada. A frase que marcou a campanha “Um filho teu não foge à luta” cabe direitinho na sua história de vida.

Espero, sinceramente, que este seja um bom governo. Que a nossa nação cresça para todos, que os abismos sociais diminuam mais. Que o nosso país seja “Mãe Gentil” não apenas para uma minoria.